~ 13 de Setembro de 2018
~ PUNHOS EM RISTE ~
Leio tudo de novo: o cabelo está curto, a barriga está gorda, o cu tem estrias, a perna tem celulite; o decote é demasiado, os piercings são demasiados, o calção demasiado curto; demasiado alta, demasiado baixa, demasiado deficiente, demasiado convencida, demasiado deprimida, demasiado. Onde, caralho, foi que nos perdemos? Esta manifestação pública de desdém, de ódio, de escarrar não por vontade mas por maldade, para a cara de quem nunca nos fez mal- um escarro covarde, que se perde nas teclas e se engole na rua, e de um cadáver mal amado, traumatizado talvez, que fazemos nós a quem sofre e faz sofrer? Que dizemos dessas? O cuspir para o ar e cair-nos uma tempestade na testa, esta seta boomerang que nos atinge quando tentamos atingir- e atingimos, oh se atingimos- outra.
Olho para o diferente, queremos o diferente, exigimos o diferente para marcar a diferença. Não queremos o que todos querem, não queremos todos o azul, antes o vermelho que ninguém quer, queremos o exótico, o estrangeiro, o escondido, o proibido- queremo-lo sempre, exceto em nós, merda. Queremos produção em linha do perfeito, do perfeito físico para que lambam os lábios, queremos o perfeito na mente, para saberem quando devem estar caladas. Queremos uma produção em massa, mas não existe uma produção em massa do perfeito, existe uma produção em massa de variedade, de cabelos curtos, de cabelos compridos, de carecas; de barrigas gordas, de barrigas magras, de barrigas com estrias; de cus redondos, cus ovais, cus quadrados, grandes, pequenos, médios; pernas altas, pernas magras, pernas finas, pernas gordas, pernas musculadas, pernas torneadas- uma variedade de cores, de seres, de essências e dinâmicas que não é para venda, não deveria ser.
Fecho os olhos e oiço-as a todas, lindas na bondade, lindas na língua afiada, lindas na paciência, lindas na falta dela. Lindas pelo que dizem, lindas pelo que fazem, lindas pelo ecossistema que são: as sardas encaixam no rosto como a luz do entardecer pela janela de uma sala, de uma casa, essa própria, essa única; que os olhos rasgados casam com a narrativa, como a manta aconchegante combina com a lareira num dia de chuva, numa casa, essa própria, essa única; que a coxa grossa assenta na mão brejeira, que não deve nem teme, como a panela a ferver faz sentido na cozinha rústica, com horta nas traseiras, de uma casa, essa própria, essa única.
Somos casas, próprias, nossas, com as nossas cores, os nossos cheiros, os nossos sabores e tudo o que demais preenche a alma, somos nossas e ainda assim INSISTEM que podem simplesmente arrombar a porta e pisar o filho da puta do tapete de boas vindas- não podem, merda! Xô daqui p'ra fora, vai de vassoura, vai de talo da couve, vai de caçadeira, mas SAI! E saem porque sou, saem porque sei, saem de mim e saem das minhas!
Que batalha esta de amarmos a casa que somos, que difícil é ter vampiros e sanguessugas que à noite nos sussurram ao ouvido histórias de terror, que nos tentam arrombar a porta de entrada, da nossa entrada.
Não deixem! Não deixem nunca, não deixem mais, não deixem nunca mais, foda-se! Pertenço a mim mesma, sei os cantos à casa, sei do que não gosto, sei que vou passar a gostar porque dá personalidade à casa, sei que se não gostar vou mudar. Sei que vou fazer o que me apetecer, sem espaço para opiniões que não foram requisitas, sem cadeira para quem não foi convidado para se sentar à minha mesa, ora merda.
A destruição e compensação da mesma é contínua, é eterna-interna, uns dias conseguimos, noutros dias os vampiros e sanguessugas ganham.
Convidem-me para arranjar a janela da sala, para que a puta da luz volte a entrar; convidem-me a pintar a cozinha, para que o cheiro a especiarias volte a perfumar o ar; convidem-me para limpar a lareira, que raios me fodam se o fogo não acende de vez e queima os vampiros, as sanguessugas e as vozes que segredam na penumbra!
Queremos uma produção em linha do perfeito.
Queremos casas perfeitas.
Queremos mulheres perfeitas.
Queremos não, querem.
Eu quero luz em vocês, quero alma perfumada e quero um caralho dum fogo que não se extingue, e quero mais!
Quero que os vampiros e as sanguessugas vão para o caralho.