7 de Maio de 2011
Já nada é como antigamente, desde as paisagens urbanas e naturais da nossa cidade conterrânea, aos sabores, passando até pelos costumes, crenças , movimentos e infelizmente a forma de falar.
Somos portugueses, sabemos que se há alguma coisa em que Portugal é rico (ou terá sido em tempos) é nos paralelos da estrada que parecem desagradar a tanta gente, mas que no entanto nos acolhem tão humildemente e nos fazem suspirar "ah! estou em casa!", nas matas por onde os nossos avós e pais costumavam correr e brincar, que foram testemunhas de tantos amores de verão. Estão a imaginar o cenário? Uma noite quente,daquelas que não deixam dormir, dois jovens deitados no meio dos fetos: ela descalça com o cabelo desleixado a modos que amarrado, de saia branca sempre abaixo do joelho e blusa azul, o típico estilo conservador de menina pobre, com a cabeça sobre o ventre dele, rapaz moreno pelo sol e sujidade, cabelo cor de ébano um tanto ou quanto emaranhado, vestindo calças de ganga rasgadas pela jovem liberdade e camisa branca que em tempos tinha sido carinhosamente lavada e dada a ferro - sem dúvida alguma que as nossas "bouças" testemunharam muitos risos provocadores e envergonhados, mão puxa mão, que puxa corpos que puxa um beijo daqueles ainda inocentes com todo o respeito presente entre um rapaz educado severamente e a menina de família que não tinham mais forças para controlar a juventude e se ficavam pelo puxa-empurra , amor-ódio, quero-te tanto-não te quero tão atraente apenas pelo desejo obviamente presente.
Aperceberam-se do quão centenária é a nossa vegetação rasteira? Que viu escolas separadas a fundirem-se numa só, que testemunhou amores, ódios, amizades, casamentos e quiçá guerras?
Quem pode dizer que cheirou um cozido à portuguesa bem à moda dos avós? Ainda tenho o prazer de testemunhar o quão fantástica é a nossa gastronomia, vai para além do sabor! Quando provamos tripas à moda do Porto, cozido à portuguesa, peixe (seja ele qual for) grelhado no Algarve, não estamos apenas a experimentar algo de novo - somos nós caramba! São CENTENAS de anos de história ali, naquele prato de barro! Mas claro, qual bacalhau pode competir com o fantástico Big Mac cuja carne veio sabe Deus de onde e cujos molhos fazem sabe Deus o quê? Chego a ter vergonha da minha geração por trocar o que é tão puro e nacional por esses estrangeirismos baratos!
Se calhar é porque os pais também acabaram por se esquecer de onde vieram, ou então os costumes foram sendo cada vez mais ignorados - aparentemente o Natal agora é mais um sinónimo de consumismo, mas nem vou debater essa vergonhosa ideia, apenas relembrar a quem nunca entendeu muito bem ou a quem nunca foi bem dado a entender que nos Natais de Salazar não haviam presentes a chegar ao tecto nem pessoas de um lado para o outro com mais sacos nas mãos do que músculos no corpo para os suportar,um peão para o menino e uma boneca de trapos para a menina.
É uma tradição, pode envolver religião é certo, mas acima de tudo é tradição! Não são presentes, é o cheiro aos doces pela manhã, o pinheiro, o frio - é aquele preciso dia 24 onde tudo parece estar absolutamente certo! Como o Natal, tantos outros costumes são desvalorizados - já não é como antigamente, agora o casamento é pelo civil , partindo do pressuposto que há casamento! Já não há desperdícios de arroz tão simbolizadores da boa sorte para o futuro, já ninguém pendura maias nas portas para afastar o mau olhado - a ciência fez questão de esclarecer que psicologia nada tem a ver com biologia. Bater três vezes na madeira, não passar por debaixo de uma escada, abrir um guarda chuva dentro de um recinto fechado, que maçada termos de nos preocupar com semelhante atrocidade! Superstições de velho, verdade? Pois ainda há quem as tenha - valha-nos D. Afonso Henriques!
Já nem as pessoas ("já" foi muito mal empregue, se não se tivessem mudado as pessoas não se teria mudado o país) falam ou escrevem como antes. Os meus pais guardam, com muito carinho e talvez saudade, uma capa de argolas grossa que contém todas as cartas escritas pelo meu pai e respostas da minha mãe, pois haveriam de ser publicadas uma ou outra para testemunhar o respeito, o vocabulário, o sentimento apostado em casa palavra! Todas as que são remetidas à minha mãe começam com - "Querida Sue (como lhe chamava o meu pai) espero que esta carta te encontre bem a ti e à tua família ..." - Não fosse a suposta informalidade, seria capaz de achar que se tratava de um artigo do jornal que pelas mãos da Comissão da Censura tinha passado! A letra milimetricamente inclinada para a direita, o papel branco acetinado , os raríssimos borrões de tinta que de vez em quando lá escapavam entre os tremeliques da caneta transformam o que em tempos era uma simples carta, numa verdadeira obra de arte! Só para não relembrar o casamento dos meus avós! O meu avô, homem elegante, bonito, de cabelo espesso e branco, culto e sábio e a minha avó cujas mãos apesar de envelhecidas pelo tratamento que lhes era dado, valiam mais do que ouro! Ambos almoçavam ora aqui, ora ali mas era certo que onde quer que estivessem, seriam levados até Matosinhos, não é esse Matosinhos de paredes riscadas, areias e águas poluídas, gente rude e mal criada- antes o verdadeiro Matosinhos, onde as águas eram límpidas tal como a areia, por onde as pessoas passeavam numa tarde primaveril de Domingo. Havia honra, havia respeito, havia boa educação naquele casamento - nunca a minha avó, nem a minha mãe, nem as minhas tias , nem eu , ouvimos o meu avô dizer um palavrão que fosse, um único! Do mais vulgar ao mais insultuoso, nunca! Não é de se louvar? Assim creio! E como ele era, também assim foi o seu casamento: longo, bonito, verdadeiro e respeitável - tanto que levou a minha mãe a desabafar a seguinte frase: " O paizinho e a mãezinha (sim, a minha mãe, senhora de 54 anos, quando fala nos pais ainda os trata por "o paizinho" e " a mãezinha") levaram-me a crer que um casamento é fácil por causa do vosso" - dá para imaginar mais ou menos como era, certo?
Onde estava a tentar chegar era que, já não se fala nem se trata as pessoas como antes. Selos? Já não se usam. Caligrafia eximiamente bem conseguida? Não faço a mínima do que seja. Já pouco se encontram senhores e senhoras elegantes, apenas a versão mais reles de tudo o que um dia existiu.
Por isso é que chora a terceira idade quando se vê obrigada a vender o ouro, não é por vergonha ou desespero, mas sim porque naquela filigrana se ouvem ecos de risos de tardes de verão, almoços saborosos de Domingos e calmos passeios à beira mar . Se perdemos isto perdemos quem somos, a terra que pisamos deixa de ser a terra de visigodos, de romanos, de lusíadas, de Camões, de Amália Rodrigues, de Cesário Verde. Deixa de ser a terra de portugueses! Os pioneiros gloriosos dos descobrimentos! Já não se ouvirá semelhante como o trágico amor de Inês de Castro e D. Pedro, já não se conhecerá o fado, seremos apenas o povo que um dia teve nacionalidade por debaixo da bandeira .
Que tristeza, já nada é como antigamente.
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