quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

"Estagnação das espécies"

17 de Maio de 2011

O que nos distingue dos animais? A pergunta, cuja resposta a maior parte das pessoas aprenderam a manter na ponta da língua: a capacidade de pensar, de raciocinar - estas complexas características do orgão mais misterioso do corpo humano: o cérebro. Brilhante, genial, sensacional, fascinante a forma como sem ele, seríamos o tapete da cruel cadeia alimentar que nos relembra diariamente a lei da vida, da sobrevivência. 
Mas será que é apenas a aptidão para construir ninhos de cimento e tijolos e de lidar com o perigo através da criação de armas de fogo, que nos mantém vivos, no verdadeiro sentido da palavra? 
Biólogos comprovaram que a maior parte dos símios é capaz de utilizar natureza morta como ferramentas, que os herbívoros são sensíveis ao mínimo movimento ameaçador e que as tartarugas podem viver centenas de anos. No meio de tantas capacidades, o que nos distingue então deles? A medicina? A qualidade de vida? Por favor! De todos os recordes humanos, nunca ninguém viveu mais do que uma tartaruga nem nenhum Obikwelu correu mais do que uma chita. Eu passo a explicar, o que na minha opinião, nos diferencia, o que verdadeiramente torna a nossa humilde média de vida humana, infinita. O que nos faz viver para sempre em 75 anos. Uma pista? Não são os bens materiais sem os quais a população do século XXI se torna miserável, nem todas as brilhantes criações que obtivémos ao longo dos anos. Preparados? 
Pessoas, momentos, vontades, desejos. O nosso combustível, parasitas psicológicos tão dolorosamente fantásticos, que torna a perda de um amigo arrebatador e a de um dos membros paternos ainda pior. Acontecimentos que científica ou psicologicamente explicável, fazem com que o dia de amanhã valha a pena e não a penosa luta diária pela sobrevivência como no meio selvagem. A última gargalhada entre companheiros, onde os nossos olhos se atrevem a pairar suavemente sobre o panorama de modo a afixá-lo na memória. 
Não são as úteis invenções humanas que nos acalentam no leito de morte, não é a noção de que conseguimos calcular ou criar que nos reconforta, mas sim toda a onda gigante de milagres a que fomos sujeitos ao longo do tempo, que nos faz viver para sempre. 
No último sopro, valeu tudo a pena.

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