domingo, 17 de fevereiro de 2019

21st century loneliness

~ 18 de Setembro de 2016

«Tenho a impressão de que certas pessoas, se soubessem exactamente o que são e o que valem na verdade, endoideciam. De que, se no intervalo da embófia e da importância pudessem descer ao fundo do poço e ver a pobreza franciscana que lá vai, pediam a Deus que as metesse pela terra dentro.»
Miguel Torga, "Diário"

Desprezo pessoas com a aura de quem subiu um degrau na evolução e só olha cá para baixo para cuspir, não odeio, odiar implicaria uma ligação emocional mais forte, implicava envolvimento, desprezo implica o negação, o não-querer-ser, o desejar nunca ser. Cada dia que passa, ou a cada experiência que tenho, valorizo mais os animais e compreendo o porquê da área humana nunca me ter interessado, ora se se abrir uma conta no nome do "Bobi Zé Pagode" com 10€ para o resto da vida ou do "Barão de Lassie e Bettencourt" com um milhão a ser depositado diariamente, os cães em absolutamente momento algum se deixariam ser corrompidos, em modo algum mudariam a ingenuidade, a entrega e a forma genuína de ser. 
O dinheiro não corrompe, as almas é que se deixam corromper. Quem és tu, com menos de 6 apelidos, que ousas exigir empatia? Quem és tu, menina de quem as boas famílias nunca irão ouvir falar? 
Eu não sou o meu nome, não sou o dinheiro que tenho nem o nome que poderia ter ou o dinheiro que poderia ter. Sou uma pessoa e isso deveria bastar. Deveria bastar para que parássemos de olhar para baixo do pedestal, a espreitar como quem tem nojo ou medo de ficar leproso. O ditado é bem antigo "pobre, mas não pobre de espírito"- não sou pobre, graças aos meus pais, não sei nem nunca soube o que é passar fome, frequento a faculdade e roupa no corpo nunca me faltou, portanto dar-me-ei ao desplante de arranjar uma boa máxima para quem simplesmente ainda se considera humano e rico de espírito: antes enterrada numa vala comum mas com princípios, do que velada pela humana que nunca fui. 
Que nunca se perca a capacidade de colocar a mão no ombro de alguém e olhá-lo nos olhos enquanto pessoa, que haja sempre a predisposição para agradecer a resiliência de quem não se deixa apodrecer. 
Que as nossas auras nunca subam um degrau e urinem para quem está lá em baixo, vai na volta e está alguém acima de nós a urinar-nos também- e assim, aos poucos, desaparece aquilo a que chamávamos de humanidade.

(desabafos de quem passou demasiado tempo rodeada de gente vazia, um dia saltam os desabafos de quem já sentiu o cálido toque no ombro dos humanos que ainda sentem empatia.)

Sem comentários:

Enviar um comentário