~ 8 de Julho de 2016
Há alguns meses estava a conversar com uma rapariga bastante bêbeda, e momentos antes de voltarmos para o sítio da festa pedi-lhe para ficar quieta de forma a que lhe pudesse limpar o eyeliner borratado, ao qual me pergunta: "Estou bem? De 0 a 10? Estou pelo menos um 5?"- perdoem-me as pessoas mais velhas e família que tenho adicionadas no facebook mas, FODA-SE. De 0 a 10? Um 5? O quê? Números? Desde quando?
Não somos números. As mulheres não são números. Os homens não são números. Isto não é uma feira de gado. Para sermos reduzidos a algo já nos basta o nosso número de cidadão.
Há uns anos o estereótipo de beleza eram mulheres exagerada e perigosamente magras, esse estereótipo tem vindo a alterar-se desde há uns tempos para cá, mas não para melhor. Proíbem anúncios com modelos de extrema magreza para nos venderem revistas e publicidades com mulheres absolutamente bem definidas, com um corpo que só geneticamente ou com muito esforço e dedicação se alcança.
Não. Não quero isso para mim, obrigada.
Há umas semanas experimentei um macacão numa loja bastante conhecida e posso-vos dizer que nesse preciso momento senti a ficha a bater-me no fundo da alma: que ridículo. Sim, ridículo, não ridícula. Eu não sou ridícula, aquela situação sim. Já ninguém faz roupa à medida, mas produzem antes roupa para que nos façamos à medida.
Não. Não quero isso para mim, obrigada.
Outra moda é o "corpo de verão", cristo redentor, o que raio é um corpo de verão?! IMPLORO para que me enviem uma fotografia de um aviso numa praia algures no mundo, logo abaixo do "proibida entrada a cães", que diga "proibida entrada a pessoas demasiado magras, demasiado gordas e com a depilação por fazer". Querem um corpo de verão? Querem um corpo de praia? Então cito uma das imagens mais brilhantes com que já tive o prazer de esbarrar: "Tenham um corpo. Vão para a praia. DIVIRTAM-SE."
Este corpo de verão implica o início de exercício físico meses antes do início do verão, a prática de exercício não pela saúde mas pela imagem. Pá, não. Não é esse o objectivo. Pratiquem exercício porque vos faz sentir bem, porque gostam e porque se sentem mentalmente melhor e não porque querem moldar o vosso corpo segundo um catálogo tão frágil quanto os estereótipos, que perdem o impacto assim que as nossas mentalidades se alteram.
Não há um corpo ideal, não é pelo facto da magreza extrema ser considerada prejudicial para a saúde que se deve pregar que "ossos são para os cães"- são de pessoas que estão a falar queridos, atentem nesse aspecto se fizerem o obséquio, e são lindas assim, saudáveis e felizes. Que vício degradante este de denegrir os outros para que os nossos próprios estereótipos se sobreponham.
O que ainda me preocupa mais são as vítimas, porque não sou só eu ou tu que de vez em quando nos sentimos mais em baixo, estes estereótipos não escolhem corpo nem idades: eu e tu temos celulite, estrias e quilos (supostamente) a mais, mas aquela rapariga super querida e prestável sem celulite, estrias e com um corpo (SUPOSTAMENTE) invejável também se sente diariamente insuficiente. Isto é assustador. A incredulidade com que olho para esta situação se calhar é a mesma que a minha mãe tinha nos olhos quando eu, em pré-adolescente, dizia que estava gorda e que a roupa não me ficava bem.
Vamos proteger-nos a todas. É tão fácil, elogiar é tão fácil. Esqueçam a televisão, esqueçam as revistas, como alguém disse "contem momentos felizes, não calorias" e acima de tudo, rodeiem-se de pessoas que vos fazem sentir bem.
Com 22 anos, um corpo imperfeito e a mente (finalmente) equilibrada convido-vos: vamos ali ver um filme e comer uma pizza familiar entre dois, sem remorsos. Vamos ali jogar voleibol durante a tarde, sem ser para emagrecer. Vamos ali dar um mergulho de bikini, sem problemas.
A melhor maneira de se ser bonito é transparecer felicidade. Vamos ali ser felizes, pago eu.
Sem comentários:
Enviar um comentário