~ 1 de Junho de 2016
Odeio constatar aquilo que a meu ver, e ainda bem, me parece tão óbvio; mas já que a qualquer besta se lhe é disponibilizado um teclado e um ecrã para ocultar a cobardia, ignorância e maldade, suponho que também estas minhas convicções, que me perseguiram durante uma hora inteira de viagem de carro, possam ser também publicadas nas redes sociais- já que são desprovidas dos mesmos ingredientes dos imbecis comentários que tenho vindo a ler ultimamente.
Na semana passada, uma miúda de 16/17 anos foi violada por TRINTA E TRÊS HOMENS (parece-me sempre necessário evidenciar a última parte). Revoltante, não é? Não o suficiente, porra.
Esta semana, passou uma entrevista do Nuno Markl ao José Cid, na qual o cantor difama os transmontanos- está o pânico instalado, o caos assola as redes sociais e as mentes dos portugueses.
O que me esmiúça o cérebro e me destrói por dentro, é a nítida falta de estabelecimento de prioridades do bom povo português, vi uma revolta quase-sanguinária aquando do jogo Porto-Braga, racismo e violência verbal ao mais alto nível foi só uma amostra do que se pôde observar naquilo que, nitidamente, é importante na vida do cidadão. Já na entrevista, por sua vez, vi uma sede de vingança devido às palavras do tão afamado e sóbrio cantor. À medida que escrevo, questiono-me "devo mencionar também porque é que é descabido ficarem tão ofendidos com algo tão ridículo?", e de bom grado o faço, porque se há algo que aparentemente é de elevada importância no dia-a-dia e na luta por valores e prioridades decentes, é a incessante disponibilidade de demonstrar o que já deveria ser óbvio. As respostas são as seguintes: porque é o José Cid. Porque o ditado é bem antigo e "vozes de burro não chegam aos céus". Porque não é uma entrevista antiga que vai definir esta terra e esta gente. Porque o assunto NÃO TEM ESSA IMPORTÂNCIA.
E de novo voltamos ao mesmo assunto, não é? Definição de importância, definição de valores, adequar aquilo que nos preocupa, revolta e suscita interesse mediante a sua importância.
Tal como mencionei anteriormente, uma miúda foi violada por 33 homens- talvez seja melhor aprofundar esta frase, cá vamos: uma miúda foi drogada para que não resistisse à violação por parte de 33 seres (que de humanos não têm nada), violação essa que se repetiu mais do que uma vez por CADA (POR CADA!) homem. Isto choca-me, choca-me verdadeiramente, feliz ou infelizmente sou pessoalmente dotada de uma imaginação bastante fértil e feliz ou infelizmente consigo imaginar (numa escala pequeníssima, como é claro) a barbaridade a que foi sujeita e portanto felizmente este assunto choca-me de tal maneira a não só suscitar revolta como também incredulidade, medo e nojo. Existe, no entanto, algo que me assusta muito, mas mil vezes mais: as opiniões de pessoas que realmente ocupam espaço neste planeta e que realmente, em algum momento, têm uma palavra a dar ou uma ação a executar. Entre a notícia e os comentários que vejo à mesma, a segunda deixa-me mil vezes mais incrédula. Leio "Também com a roupa que usa", leio "não devia sair à noite sozinha", leio "MERECEU!"- leio mesmo isto. Está algures em centenas de espaços cibernautas, registado mais do que um comentário a incitar a violação. F#da-se, mas mereceu?! Volto eu ao que deveria ser óbvio. Mas mereceu porquê? Mas onde é que ela comprou aquela placa gigante de néon a dizer "VIOLEM-ME, SE POSSÍVEL MAIS DO QUE 30"? Mereceu? Mas como assim alguém merece ficar desfeito num trapo tanto física como psicologicamente? Mereceu? Mas como assim pelas roupas? Onde é que isso está escrito no código civil? "À luz do artigo X, indivíduos portadores de peças de roupa que no seu total sejam inferiores a X cm, são imediatamente sujeitos a violação sexual por um número indeterminado de cidadãos".
Algumas pessoas deveriam ter uma epifania, uma viagem espiritual ao estilo de Dickens n'" O Conto de Natal"- viajariam para uma realidade onde cada uma das mulheres da família dessas pessoas que afirmam "mereceu", eram violadas por 33 homens, sendo que essas mesmas pessoas seriam forçadas a olharem-lhes nos olhos e dizer "Mereceste pela tua roupa. Mereceste por teres saído à noite. Mereceste. Mereceste. Mereceste"- cada irmã, filha e mãe desfeitas deveriam ouvir isto através da boca do familiar que num dia, numa outra situação, opinou: "mereceu". Na realidade nada acontecia, porque não acredito que inocentes devam pagar pela ignorância de outrem (embora o mesmo aconteça todos os dias, que giro), mas o indivíduo que se prestou a este papel de juiz e carrasco numa situação tão abominável, sentiria na pele o peso e a dor das palavras que profere sem dó nem piedade.
As mesmas pessoas que apoiam, direta ou indiretamente, todas estas violações dos direitos humanos, são as mesmas pessoas que apoiam o racismo, que apoiam a homofobia; Mais uma vez, porque é realmente importante ter noção do que cada frase significa, por exemplo: as pessoas que acreditam que a rapariga de 17 anos mereceu ser violada por 33 homens, são as mesmas pessoas que reprovam, com ou sem violência, relações homossexuais. Apoiam uma barbaridade mas reprovam o amor.
Esta minha revolta é um misto da não conformidade do estabelecimento de prioridades e das respetivas opiniões às mesmas. Por um lado enjoo a partilha da notícia do José Cid e a falta de partilhas do que é verdadeiramente importante, por outro até tenho medo que assuntos assim tão importantes e delicados sejam do conhecimento de mentes ignorantes.
É neste paradoxo que vivemos. É importante saber, mas ainda mais importante é o teste de humanidade que é feito quando se sabe.
Segundo a Bíblia os demónios são anjos caídos do céu. Ultimamente apercebo-me que se aplica aos humanos: nascemos todos com humanidade dentro de nós, aquela voz meiga que nos apela ao melhor de que somos feitos e nos leva a importar, a ajudar, a fazer a diferença por muito pequena que seja. Infelizmente muitos de nós, ao longo da vida, perdem essa humanidade. Essa perda é dos cenários mais tristes que se pode testemunhar, alguém tão desprovido de brilho, de essência- acima de tantos problemas que acontecem diariamente no mundo inteiro, esta é sem dúvida a maior catástrofe, a perda irreversível de humanidade.
Apelo a quem vê o mundo de uma forma parecida com a minha: nunca desistam, seja onde for. Numa conversa de café, não deixem passar aquele comentário maldoso, apelem ao bom senso das pessoas; No facebook, não discutam com autores de comentários ignorantes, mas escrevam algo inspirador, algo que promova fé na humanidade; No dia-a-dia, façam bem: elogiem, sorriam, brinquem, protejam, o importante é agir, é ter uma palavra e um ato humanos a inserir neste ciclo.
A ignorância desespera. A maldade desespera. A falta de empatia e humanidade desesperam. Mas mais desesperante ainda é ser um mero espectador nesse circo.
Por favor, não o sejam nunca.
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